Táxi Driver: Crise do masculino no capitalismo

Táxi Driver: Crise do masculino no capitalismo


O filme Táxi Driver, dirigido por Martin Scorsese em 1976, conta a história de Travis Bickle, um ex-fuzileiro naval que se torna motorista de táxi em Nova York. Insone e cada vez mais perturbado com a violência e a decadência da cidade, Travis começa a desenvolver um desejo obsessivo por limpar as ruas dos "escória" que as habitam. Seu desequilíbrio mental é agravado por seu isolamento social, pela falta de conexão emocional com as pessoas ao seu redor e pela rejeição de sua paixão platônica por uma prostituta adolescente.

O contexto social e político da época em que o filme foi feito, os anos 1970, é importante para entender a narrativa. A Guerra do Vietnã havia acabado há pouco tempo e o sentimento anti-guerra estava em alta. Além disso, a cidade de Nova York estava em uma crise financeira e social, com um aumento alarmante da violência e da criminalidade. Todos esses elementos são representados no filme através da figura de Travis e de sua crescente alienação e desejo de vingança contra a sociedade que ele considera doente e corrupta.

Um dos temas centrais de Táxi Driver é a masculinidade tóxica, ou seja, a ideia de que os homens devem ser fortes, dominantes e agressivos. Essa construção social da masculinidade é problemática porque muitas vezes leva a comportamentos violentos e prejudica a saúde mental dos homens. Esse tema é especialmente relevante para os estudos marxistas, já que o próprio Karl Marx defendia que a ideologia dominante de uma sociedade é a ideologia da classe dominante.

Assim, é possível argumentar que a construção do masculino tóxico na sociedade capitalista é resultado das relações de poder entre a classe dominante (os donos dos meios de produção) e a classe trabalhadora. Como F. Engels escreveu em A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, a família patriarcal e a divisão de trabalho por gênero são produtos do surgimento da propriedade privada e da necessidade de garantir a transmissão da riqueza por herança. Isso levou à subjugação das mulheres e à construção de uma masculinidade baseada na violência e na dominação.

Travis Bickle é um exemplo dessa masculinidade adoentada no capitalismo. Ele é um homem branco, trabalhador, com problemas financeiros e emocionais, que se sente impotente diante da sociedade que o oprime. Sua única saída é a violência, o que o leva a um final trágico. A representação de Travis no filme é uma crítica ao modelo de masculinidade que é valorizado na sociedade capitalista, uma masculinidade que é incapaz de lidar com as complexidades da vida moderna e que acaba se tornando autodestrutiva.

Em suma, Táxi Driver é um filme que aborda questões relevantes para os estudos marxistas, como a construção social da masculinidade tóxica e a relação entre a ideologia dominante e a opressão das classes trabalhadoras. Através da figura de Travis Bickle, o filme faz uma crítica ao modelo de homem que é valorizado na sociedade capitalista e mostra as consequências negativas dessa construção social. Portanto, a análise de Táxi Driver pode contribuir para uma reflexão sobre a necessidade de se repensar os modelos de masculinidade e de se buscar alternativas mais saudáveis e igualitárias para as relações de gênero na sociedade. Além disso, o filme destaca a importância da análise crítica da ideologia dominante e da compreensão das estruturas sociais e econômicas que moldam nossas relações sociais, questões fundamentais para os estudos marxistas.

A crise do masculino

A crise do masculino é um tema complexo e multifacetado que tem sido abordado por diversos pensadores ao longo da história. Na perspectiva marxista, a questão do masculino está intrinsecamente ligada ao desenvolvimento do capitalismo e às mudanças nas relações sociais e de trabalho.

Friedrich Engels, autor de A Origem da Família, Propriedade Privada e Estado, argumentou que a opressão das mulheres e a subordinação do feminino eram produto das relações de produção, que promoveram a divisão do trabalho e a hierarquização dos gêneros. Segundo Engels, antes da ascensão da propriedade privada, as mulheres desempenhavam um papel importante na produção econômica e social, mas foram gradualmente marginalizadas à medida que a produção se industrializou e se tornou mais centralizada.

Silvia Federici, por sua vez, desenvolveu uma análise mais específica da opressão das mulheres no capitalismo, destacando a importância da reprodução social como um componente crucial da economia capitalista. Segundo Federici, a exploração do trabalho reprodutivo das mulheres é uma forma central de manutenção do sistema capitalista, e a subordinação do feminino é uma condição necessária para a manutenção do trabalho gratuito e precarizado.

Com o avanço do neoliberalismo, as transformações no mundo do trabalho e nas relações sociais também tiveram um impacto significativo na crise do masculino. A precarização do trabalho, o aumento do desemprego e a inclusão das mulheres no mercado de trabalho levaram ao declínio do modelo tradicional de família patriarcal, em que o homem era o provedor e a figura central da casa.

Essas mudanças criaram uma crise de identidade para muitos homens, que se sentem deslocados e sem um papel definido na sociedade atual. Essa reação tem se manifestado em formas variadas, incluindo a misoginia, o machismo e a adesão a ideologias masculinistas, que buscam reafirmar a suposta superioridade masculina e a necessidade de manter as hierarquias de gênero.

Em suma, a crise do masculino é uma questão complexa e multifacetada que tem sido abordada por diferentes teóricos e pensadores. Na perspectiva marxista, a crise está ligada ao desenvolvimento do capitalismo e às mudanças nas relações sociais e de trabalho, e a reação a essa crise pode levar a formas perigosas de misoginia e ideologias masculinistas.

Superação dialética 

A superação dialética da crise é um conceito que tem suas raízes na filosofia de Hegel e que foi posteriormente desenvolvido por Marx. A ideia central é que as contradições e conflitos presentes em uma determinada realidade social geram uma dinâmica de transformação que leva à superação das contradições iniciais.

No caso da crise do masculino, a contradição está presente entre o modelo prototipado pelo capitalismo no século XX, baseado na figura do homem provedor e hierarquia de gênero, e a realidade concreta do século XXI, com a inclusão de novas pautas e relações de produção que mostram o desencaixe deste modelo. A tese, portanto, é o apego ideológico a este modelo como um mapeamento cognitivo fascista da realidade.

A antítese é a constatação objetiva do desuso deste modelo em face da realidade atual, que avança com pautas feministas e LGBT. O capitalismo, adaptando-se a estas novas pautas, mostra que o masculino tradicional está em crise e que novas formas de relação entre os gêneros precisam ser construídas.

A síntese, então, é a superação da ideia de masculino em si mesma. É a negação da própria ideia de masculino como uma identidade fixa, e a aceitação de relações fluidas e naturais, baseadas em valores de igualdade, liberdade e fraternidade entre homens, mulheres e tudo que há entre.

Assim, a superação dialética da crise do masculino não é simplesmente a construção de um novo modelo de masculinidade, mas sim a desconstrução da própria ideia de masculinidade como um conceito fixo e a construção de novas formas de relações sociais, baseadas em valores democráticos e humanos.

Um grama de prática...

Para evitar que mais pessoas sejam radicalizadas e se tornem como Travis Bikle, é fundamental que se forme uma ampla rede de solidariedade, a partir de iniciativas de comunistas e outros movimentos sociais.

Essa rede deve ser capaz de reatar laços sociais e construir um novo tecido social baseado na fraternidade, na igualdade e na solidariedade, capaz de socializar e integrar indivíduos em situação de vulnerabilidade social.

A construção dessa rede  deve incluir ações que combatam a desigualdade social e a exclusão, tais como a luta por melhores condições de trabalho, por moradia digna e por uma educação pública de qualidade.

Além disso, é importante que se promova a cultura e a arte, como formas de expressão da diversidade humana e de construção de valores de tolerância e respeito às diferenças.

Por meio dessa rede de solidariedade é possível evitar a radicalização fascista de indivíduos como Travis Bikle, que muitas vezes se sentem excluídos e abandonados pela sociedade. Ao construir um ambiente mais acolhedor e justo, é possível promover a integração social e evitar a propagação de ideias e comportamentos fascistas. 

***
Curtiu? Siga nossas redes


Postar um comentário

0 Comentários